“Silly season” é uma expressão inglesa que designa o período do ano de menor intensidade informativa nos media, geralmente o período de verão, altura em que os jornalistas, na falta de acontecimentos verdadeiramente importantes, tratam como relevantes assuntos que, geralmente, não constituiriam objeto de notícia.
Embora já estejamos em plena "estação ridícula" ou “silly season”, como preferirem, este ano parece que, mesmo nesta época, continua a haver acontecimentos bastante importantes para serem tratados, dispensando a criatividade dos jornalistas.
A "estação ridícula" este ano está a ser tão atípica que até o primeiro-ministro transformou a sua não ida de férias em Agosto num assunto de Estado, a tal dando publicidade com pompa e circunstância. Ou seja, numa altura em que a generalidade da comunicação social – e não apenas a cor de rosa, usaria espaço e tempo para falar nas férias de Luís Montenegro, este decidiu, certamente depois de muito ponderar, manter-se presencialmente em funções no Palácio de São Bento.
Certamente que nessa ponderação, não contou apenas a tentativa de atenuar o impacto político negativo que teve a sua repetida ausência do País, para assistir aos jogos da Seleção Nacional de Futebol no Mundial, nos Estados Unidos da América, quando o País ardia, e com os incêndios, mas também com os problemas que o governo não resolve ou cria. Terão sido estes últimos – os problemas que o governo não resolve ou cria -, que terão sido determinantes para aquela sua decisão.
Com efeito, já não bastava o País voltar a ser confrontado com a falta de uma verdadeira política de ordenamento do território que previna contra os incêndios e a dificuldade em combatê-los com eficiência, bem como a atividade das oposições e a maior atenção deste Presidente da República à ação do governo, para que outros incêndios virtuais fossem provocados por alguns membros do executivo.
A incapacidade do governo. e dos respetivos ministros. de responder com eficiência à falta de habitação, aos velhos problemas, cada vez mais agravados, do Serviço Nacional de Saúde e da Justiça, de cumprir as promessas e os compromissos assumidos com as vítimas da tempestade Kristin, de cumprir promessas anunciadas de novas infraestruturas, designadamente na área dos transportes, dentro dos prazos divulgados, de concluir, sem atrasos e penalizações o PPR – Plano de Recuperação e Resiliência, entre tantos outros, não têm facilitado a vida do primeiro-ministro.
E, como se já não bastassem esses problemas que se vêm arrastando, sem que se vislumbrem melhorias, eis que os ministros apontados como as estrelas deste governo – os da Administração Interna, da Educação, e das Finanças -, começaram a borregar.
O ministro da Administração Interna, apontado como um operacional eficaz, com prestígio ganho como Diretor Nacional da Polícia Judiciária, capaz de pôr ordem no que estava a falhar, como o combate eficaz aos incêndios, é posto à prova por grandes incêndios que demoram a ser extintos, e confrontado com decisões pouco ortodoxas na Polícia Judiciária e na sua vida pessoal, estando sob escrutínio apertado da comunicação social, das oposições e do Presidente da República.
O ministro da Educação, que granjeou alguma popularidade por ter satisfeito algumas reivindicações dos professores, e apontado como capaz de resolver velhos e graves problemas do setor, borrou a copa ao avançar com a digitalização da avaliação dos exames, sem ter tido em consideração as falhas, não corrigidas, da experiência piloto do ano passado, e depois de extinguir alguns serviços do Ministério, infernizando a vida dos professores, alunos, famílias e demais comunidade escolar.
O ministro das Finanças, apontado pelo primeiro-ministro como o seu Ronaldo das Finanças, que prometeu baixar impostos, captar mais e melhor investimento estrangeiro, manter as contas em dia, com saldo positivo e baixar a dívida, começa a ter dores de cabeça, por dificuldades acrescidas em conseguir aprovar o Orçamento de Estado para o próximo ano, por aquelas promessas se estarem a transformar em quimeras, devido não apenas a algumas dificuldades externas e outras provocadas por intempéries, mas, também e principalmente, devido às suas políticas.
E, por tudo isto e muito mais, não é de estranhar que o primeiro-ministro tenha decidido ficar de plantão, na tentativa de controlar estes e outros eventuais danos, em plena “silly season”, que se está a revelar mais séria do que é habitual.
Até depois desta "estação ridícula"!
LG, 04/08/2026
"Estação ridícula" está a ser mais séria do que é habitual
Embora já estejamos em plena “silly season”, parece que continua a haver acontecimentos bastante importantes para serem tratados, dispensando a criatividade dos jornalistas.