ALVITRANDO

Do incumprimento dos direitos à indignação, à manifestação e à insurreição

A reação dos governos, que privilegiou a repressão dos movimentos contestatários, teve efeitos contraproducentes, como o endurecimento das formas de luta desses movimentos

O aumento da riqueza produzida pelo progresso, designadamente pelos avanços da computação e da inteligência artificial, não tem gerado tanto desenvolvimento quanto se esperava e tem acentuado as desigualdades, com o aumento de multimilionários e a crescente concentração da riqueza nalguns poucos, e o aumento da pobreza.
A profunda reestruturação no mercado de trabalho atual, em resultado dos avanços da ciência e da tecnologia, gerou uma dinâmica de destruição de postos de trabalho, automatizando tarefas repetitivas e criando novas profissões de maior valor acrescentado, mas nem sempre o saldo entre postos de trabalho criados e extintos foi positivo, com a agravante dos trabalhadores que perderam os seus postos de trabalho serem os mais velhos e terem mais dificuldades de serem reconvertidos.
A democracia não se esgota na componente política e muito menos deve ser reduzida ao ato de votar. Ela deve ter e desenvolver-se noutras dimensões: económica, social, cultural e com respeito pela terra, preservando a natureza e o meio ambiente. 
A par dos enormes avanços científicos e tecnológicos, temos assistido a retrocessos civilizacionais, com verdadeiros atentados à sustentabilidade da vida na terra e à paz, ao crescente desrespeito pelos direitos humanos e à degradação das democracias.
Apesar do progresso e da democracia política ser o regime político que impera na maioria dos países mais desenvolvidos, continuam por cumprir as promessas tantas vezes e por tantos repetidas de paz, pão, habitação, saúde e educação.
Não é, por isso, de estranhar a onda de descontentamento que se tem vindo a registar, atingindo já países como a França, a Espanha, a Itália, a Grécia, a Albânia e Portugal. 
O descontentamento que começou na indignação perante a falta de cumprimento de direitos básicos, rapidamente evoluiu para acampamentos pelo direito à habitação, manifestações por melhores condições nas escolas e de vida, até à insurreição, com violência contra as forças de segurança e bens patrimoniais de pessoas e do Estado. 
A reação dos governos, que privilegiou a repressão dos movimentos contestatários, através das forças da segurança, que nem sempre usaram os meios mais adequados e proporcionais às situações, teve efeitos contraproducentes, como o endurecimento das formas de luta desses movimentos, com grande participação de jovens. 
Os problemas não se resolvem atacando quem os denuncia e reclama que os poderes os resolvam de facto e que não se fiquem pela repetição de velhas promessas. Aos poderes compete-lhes ir às raízes dos problemas, identificar as suas causas e criar,  desenvolver e aplicar as soluções adequadas à sua solução. 
Algumas reações de alguns governantes e outros políticos podiam ser compiladas  num manual de como não agir em caso de crise, de tão inadequadas, erradas e até ofensivas do bom senso e da inteligência das pessoas. 
O presidente da Câmara do Porto, para além de motivar a intervenção ziguezagueante das forças de segurança, começou por falar grosso e em tons autoritários, para depois “baixar a bola”, reconhecer o direito à manifestação e protesto, recordando a tradição liberal da Cidade, e se disponibilizar para reunir com os acampados. 
O primeiro-ministro cavalgou a onda securitária e  enveredou pela baixa política, atacando “partidos políticos, movimentos associativos, organizações portuguesas” de, “por razões meramente egoísticas da sua própria ação, importarem para Portugal climas de instabilidade, de contestação", e acabou por esclarecer que não “disse que havia egoísmo dos manifestantes" e compreender "que as pessoas queiram respostas" na habitação e "possam expressar a sua indignação". 
O ministro dos Assuntos Parlamentares disse que o problema da habitação "não se resolve com bandeiras da Palestina", nem com tumultos e avisou que o Governo "não vai ceder aos gritos que vêm da rua". O líder parlamentar do CDS apelou ao Governo, à Câmara do Porto e às forças de segurança para terem "determinação e coragem" para "pôr na ordem" uma "minoria de arruaceiros que ocupou ilegalmente o espaço público”. E um deputado do Chega afirmou: “encostem-nos à parede”. 
É esta gente que ocupa os principais lugares do Estado, que, em vez de reconhecer os direitos das pessoas, a existência dos problemas e trabalharem para os resolver, optam por acusar os antecessores e agravar os problemas com as decisões que tomam. 
É o caso da habitação, que, dois anos depois, está pior, com ameaças de se agravar mais, dificultando ainda mais a vida de quem precisa de casa, designadamente os jovens que querem sair da casa dos pais e constituir família. A política de habitação é um dos melhores exemplos de como o mercado só por si não resolve os problemas.
Até para a semana!                                                                                
LG, 20/10/2026

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