Um estadista ou homem de Estado é uma pessoa com grande domínio na arte de governar e de moldar a sua política, que lidera com sabedoria, visão de longo prazo e foco no interesse coletivo, e sem limitações partidárias.
O estadista ou homem de Estado foca-se no longo prazo, no bem comum e nas próximas gerações, aceitando inclusive o risco da impopularidade para fazer o que considera certo, enquanto o político comum se foca no curto prazo, na popularidade imediata e na próxima eleição.
Apresentadas estas definições, parece fácil a conclusão de quem governa nos dias de hoje, cá e por, quase, todo o mundo. O quase refere-se a muito poucos que, nalguns casos apenas pontualmente ou nalguns aspetos, ainda fazem a diferença e assumem o papel de estadistas. Na esmagadora maioria dos casos aquilo que hoje temos são políticos comuns, e, em muitos casos, verdadeiros oportunistas, que têm como objetivo a manutenção dos lugares a que tiveram acesso, muitas vezes, “sem saber ler ou escrever”, como se costuma dizer.
É por isso que a Política está tão desacreditada, porque os que deviam beneficiar da ação dos que governam veem que estes em vez de liderarem com sabedoria, visão de longo prazo e foco no interesse coletivo, exercem os seus cargos com a preocupação de neles se manterem por mais tempo possível, servindo os seus interesses, dos seus partidos e de grupos que os podem ajudar a manter-se no poder.
O antigo presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, afirmou, há dias em Lisboa, que: "Quando era presidente, a maior parte das decisões que tomei não eram óbvias. E tomei decisões que não foram as melhores para mim, politicamente, mas eram as melhores para o país".
Nos seus dois mandatos na Casa Branca, teve de lidar com as consequências da crise financeira de 2008 e conseguiu fazer aprovar a lei que ficou conhecida como Obamacare, que alargou a cobertura de saúde a mais milhões de americanos, além de alguns avanços nos direitos civis e igualdades. Na política externa, protagonizou a reaproximação a Cuba, assinou os Acordo de Paris sobre o Clima e negociou o acordo nuclear com o Irão.
Todas estas políticas viriam a ser revertidas por Donald Trump. Só isto chega para mostrar como mudou a liderança política na maior potência do mundo, o que ilustra o que dissemos atrás.
Mas esta mudança na forma e nos objectivos de governar não se verificou apenas nos Estados Unidos da Aamérica. Verificou-se em muitos outros países, incluindo outras grandes potências e também no nosso país.
Para atestar esta conclusão, basta fazermos o exercício de identificarmos os principais homens e mulheres de Estado de vários países, incluindo o nosso, e vamos ver que, para muitos de nós, é mais fácil identificar antigos que os atuais.
Esta mudança é transversal aos diferentes regimes políticos. Não se verifica só nos regimes democráticos. Como também não terá razões ideológicas, porque a elas também é transversal.
Por cá o (re)aparecimento de Passos Coelho, apresentando-se como um D. Sebastião, mostra bem ao nível a que chegámos. Temos um ressabiado, por ter sido afastado do poder por uma maioria parlamentar que quis pôr fim à sua política de austeridade, a criticar e a querer afastar da liderança do seu partido e do governo o seu antigo líder da bancada parlamentar, a quem acusa de não se aliar ao Chega e à Iniciativa Liberal, para retomar a sua política.
É este o nível destes políticos caseiros oportunistas, que, tentando arvorarem-se em homens de estado não passam de políticos comuns, preocupados apenas com os seus interesses e que, neste caso em concreto, nem sequer têm em conta o interesse do seu partido quanto mais o do país e das pessoas.
É mais um sinal negativo destes tempos complexos e perigosos que vivemos. Até quando e o que fazer para os mudar é, certamente, uma das questões mais pertinentes que se coloca à governação, cá e no mundo.
Até para a semana!
LG, 13/10/2026
Oportunistas em vez de estadistas
Apresentadas estas definições, parece fácil a conclusão de quem governa nos dias de hoje, cá e por, quase, todo o mundo.